O ato revolucionário de ir devagar quando o mundo exige pressa


0
Em tempos de algoritmos, a maior rebeldia é insistir no tempo lento de conhecer alguém.

Sabe aquela sensação estranha de estar em um buffet infinito, mas continuar com fome? Tenho pensado muito nisso toda vez que vejo a luz azul de um celular iluminando o rosto de alguém num bar. A gente desliza o dedo para a direita, para a esquerda, descartando ou aprovando seres humanos na mesma velocidade com que pulamos uma música que não nos agradou nos primeiros três segundos.

É quase mecânico, não é? O problema é que, sem perceber, trouxemos a lógica do fast food para dentro do peito. Queremos o amor pronto, entregue na porta, quente e, de preferência, sem taxas de entrega emocional. Mas a verdade — aquela que nenhum aplicativo coloca nos termos de uso — é que gente não é mercadoria de prateleira. Gente é cozido lento. Daqueles pratos que precisam de horas no fogo baixo para apurar o gosto, para a carne soltar do osso.

Vivemos tempos obcecados pela eficiência. O algoritmo quer que você encontre o ‘match’ perfeito baseando-se em cinco fotos e uma biografia engraçadinha. Ele nos vende a ilusão de que podemos otimizar o afeto, pular a parte chata das conversas desajeitadas e ir direto para o ‘felizes para sempre’ (ou pelo menos para o ‘felizes nesta noite’). Só que a intimidade real, aquela que sustenta e transforma, é tudo, menos eficiente. Ela é bagunçada, cheia de pausas, silêncios e desvios de rota.

A coragem de suportar o tédio

Talvez a coisa mais subversiva que alguém possa fazer hoje seja simplesmente parar. Parar de procurar o próximo, parar de achar que existe alguém melhor a um swipe de distância. Insistir no tempo lento de conhecer alguém é, sim, uma forma de rebeldia. É olhar nos olhos de outra pessoa e ter a coragem de descascar as camadas, uma por uma, sem saber se o que está lá dentro vai te agradar totalmente.

Porque conhecer alguém de verdade dá trabalho. Exige que a gente suporte o tédio de um domingo à tarde sem grandes eventos. Exige ouvir a mesma história da infância pela terceira vez e, ainda assim, encontrar ternura nela. O algoritmo odeia o tédio, porque o tédio faz você largar o celular. Mas é justamente nesses intervalos não editados, longe dos filtros e das melhores angulações, que a conexão acontece.

Não estou dizendo que devemos insistir naquilo que machuca ou não faz sentido. Estou falando sobre a paciência necessária para deixar o outro se revelar. Muitas vezes, a pessoa incrível que procuramos está escondida atrás de uma primeira impressão tímida ou de um jeito meio torto que o nosso radar de ‘perfeição imediata’ descartaria em segundos.

Que tal se, da próxima vez, a gente tentasse ler a pessoa como quem lê um livro complexo, e não como quem lê uma manchete de jornal? A pressa é inimiga da profundidade. Num mundo que grita por velocidade e superficialidade, escolher a demora, a escuta atenta e o tempo dilatado do encontro talvez seja a única forma de amor que realmente valha a pena ser vivida. Desacelerar, afinal, é o único jeito de sentir a paisagem.


Like it? Share with your friends!

0
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais votado
mais recentes mais antigos
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários