Dercy Gonçalves

Compartilhar:

Por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, por enquanto, ainda não há terra em cima.

Eu fiz 94 anos, mas já digo que estou com 95 para me energizar e chegar lá. Escrevam o que eu digo: eu só vou morrer quando eu quiser! Não programo morte, eu programo vida!

Minha idade é o maior prêmio que Deus me deu. Deus nunca foi um pai para mim. Deus é meu amante.

Eu sou a Dercy Gonçalves e você não vai me assaltar, não.

Embora eu não tenha motivação para isso, aceitei, porque é para a terceira idade e foi o público que me fez a Dercy Gonçalves. A emoção, os sentimentos, o amor, a alegria, a tristeza, a raiva, tudo termina com o tempo. Você vai perdendo a vontade de viver.
Suas paixões, tudo se vai. É a ordem natural das coisas. Por isso, eu fico muito decepcionada com o ser humano. Estamos desmoralizados, usam a maldade no lugar da bondade. Ainda bem que eu estou ótima, não tenho doença, só uma falta de açúcar que eu finjo não ter e me acabo de chupar balas. Quer saber? Desde que nasci, acho que sou a pessoa mais feliz do mundo. É difícil eu encontrar alguém mais feliz do que eu. Simplesmente por amor à vida!

Todas as manhãs, a solidão me deixa deprimida. Moro sozinha, tem três pessoas que se revezam para me acompanhar. Minha filha não mora comigo. Filho não gosta de mãe; é a mãe que gosta do filho. Eles crescem, ganham independência e passam a ter prioridades. Eu me animo no cair da tarde, às 16h mais ou menos. Luto para ter forças para sair. Aí me arrumo, vou pro bingo. Lá, sou muito bem tratada, ganho cartelas e me distraio. À noite, vou a festas, jantares, adoro comer. E volto pra casa, durmo feliz. Assim são meus dias, sem expectativa.

Hoje a cidade me aplaude. Até museu fizeram para preservar a minha história.

Escrevia cartas e as lágrimas caíam no papel. Mas o tempo passou e eu esqueci Luís Pontes. Ai de nós se não houvesse o esquecimento. Ao Lembrar de seu amor verdadeiro.

Sentei o pé nele e saí porta afora. Socorro! Esse homem me furou! Imaginei que tinha enfiado um facão e rasgado minhas tripas. Depois de ver o sangue ao perder sua virgindade, com o cantor Eugenio Pascoal.

Não sabia que eu era moça, não tinha virado mulher.
Obs.: Quando passou a ser assediada pelo cantor Eugenio Pascoal.

Foi a primeira pessoa que me deu carinho. Mas a família dele proibiu o namoro. Quando se apaixonou por Luís Pontes

Ficavam namorando na sala, de mãos dadas. Mas papai nunca assumiu o romance. A certa altura da noite, ela ia embora. Falando da amante de seu pai.

Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom.

Na vida tudo é um jogo. Perde ou ganha. Até no amor. Mãe pra filha, marido pra mulher, tudo é interesse: se eu não te dou você também não me dá.

Só vou morrer quando EU quiser.


Compartilhar:

Você pode gostar...

Deixe uma resposta