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Gianfrancesco Guarnieri

Ninguém está preocupado com teatro.

Desde cedo sentia-me dividido entre a ação política concreta e o caminho mais contemplativo, da ação cultural e artística.

Não é um governo de esquerda (o de Lula), é um governo de centro, de social-democrata, que seria o do Fernando Henrique. Estamos num regime capitalista, ainda.

Quando iniciei o tratamento, um dos rins tinha 29% de funcionamento e outro já foi extraído. Estava quase batendo as botas. Encaro a hemodiálise de forma positiva.

Minha vida gira em torno da hemodiálise.

Para imaginar esses personagens (de Eles Não Usam Black-Tie e A Semente, ambas sob o ponto de vista dos operários) na atual sociedade brasileira, é preciso colocá-los imutáveis. Seriam daquela época vivendo hoje. Acho que eles enlouqueceriam, não agüentariam. Têm coisas sólidas na cabeça, a questão moral. Esses caras não mudariam nada, possuem uma ética brutal.

E tem o lado que eu me preocupo cada vez mais, que é com as grandes questões filosóficas, os porquês disso, daquilo. De onde vem a vida? Vou lá saber… Aí começo a rir. Perguntar para mim mesmo é covardia. E é lindo você pensar de onde veio e para onde vai. Eu talvez me preocupe mais para onde vou. Mas sei que para onde vou terei uma calma. Se você me perguntar se tenho medo da morte, não tenho, me enturmo com o que vier. Eu tenho medo do sofrimento. Eu sei que o que vier vem de bom.

A questão da transformação, eu acho que continua. Não escrevo nada que não vá transformar. Agora, ao mesmo tempo, não posso me esquecer daquela tendência à ingenuidade na nossa juventude. De achar que vai dar tudo certo, é assim mesmo, ah, não tem galho, porque a gente sempre termina ganhando. Depois, percebemos que não era nada disso. O que realmente não admito é deixar a bola cair. Há momentos em que cai; puxa, tudo é uma bosta. Mas isso é um momento e, depois, deixa de frescura, bicho, vai em frente.
Obs.: Falando sobre o Realismo socialista.

É uma insuficiência renal crônica. Essa aí, ou você fica fazendo hemodiálise, três vezes por semana, como eu, ou faz um transplante. Ainda bem que existe a hemodiálise, sempre agradeço. Após quatro anos, sinto-me mais animado. A doença dá uma depressão terrível, aquele cansaço. Não é moleza, não. Mas, ao mesmo tempo, não é dizer: Que terrível, morreu. Morreu o escambau. Está aí e vai em frente, rapaz, com todo o sorriso de felicidade que tem. A ciência trabalha com essas tecnologias todas e, puxa, te dá um rim novo. Uma injeçãozinha e uma maquininha te viram o sangue de cabeça para baixo. Estou discutindo com os médicos para saber se vale a pena tentar o transplante ou se deixa para lá. Obs.: Sobre a doença.

A única coisa que a gente poderia fazer era sobre a história brasileira, porque aí ninguém cobraria, não proibiriam logo de cara. Chegamos à conclusão de que Zumbi seria realmente fantástico. Foi o início de um intercâmbio muito grande entre nós e os diversos setores das artes, desde instrumentistas, compositores, atores, jornalistas, enfim, eram todos. Parecia que um fio começava a se juntar. Aquilo se tornou realmente um pátio dos milagres, no bom sentido. Vinham pessoas de outros Estados e se juntavam lá no Redondo (bar e restaurante na esquina da av. Ipiranga com a r. Teodoro Baima, em frente ao Arena, reduto de artistas e intelectuais).
Obs.: Falando sobre o Patio dos Milagres.

O Arena Conta Tiradentes tinha músicas de Caetano, de Gil, de Sidney Miller, Theo de Barros e daí por diante. Eram muitos. Enquanto Arena Conta Zumbi tinha um autor só. Sem querer desfazer dos outros, era um só com essa grande responsabilidade. O Edu Lobo era fantástico; mocíssimo, tinha acabado de ser premiado no Festival da Excelsior [1965, com Arrastão, parceria com Vinicius de Moraes e interpretação de Elis Regina]. O melhor mesmo é quando você tem um compositor com o qual se afina, conversa, vai junto, aí é muito legal. O Edu ficou com a gente. Éramos dois tímidos, uma coisa terrível. Eu perguntava: Dá para tocar?. Ele respondia: É bom. Ficamos nessa dois dias, até que chegamos a coisas que realmente nos entusiasmaram.
Obs.: Sobre Edu Lobo.

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