Lista

Virginia Woolf

Envia-se um menino para a escola para fazer amigos – do tipo certo.

Ainda está em nossa indolência, em nossos sonhos, que a verdade submersa às vezes vem à tona.

As mulheres serviram todos estes séculos como espelhos possuindo o poder de refletir a figura do homem duas vezes maior que seu tamanho natural.

Por quê as mulheres são… tão mais interessantes aos homens do que os homens são às mulheres?

Quem medirá o chapéu e a violência do coração dos poetas quando capturados e aprisionados no corpo de uma mulher?

Onde a mente é maior, o coração, os sentimentos, a magnanimidade, a caridade, a tolerência, a bondade e o resto delas dificilmente consegue respirar.

Quando a pele enrugada do ordinário é empanturrada de idéias, isso satisfaz os sentimentos maravilhosamente.

Podemos ajudá-los melhor a prevenir a guerra não repetindo suas palavras e seguindo seus métodos mas encontrando novas palavras e criando novos métodos.

Somos nauseados só de olhar para personalidades triviais decompondo-se na eternidade da tinta do jornal.

Para aproveitarmos a liberdade temos que nos controlar.

Depender de uma profissão é uma forma menos odiosa de escravidão do que depender de um pai.

Pensamento e teoria devem preceder todas as ações saudáveis; ainda que a ação seja mais nobre que o pensamento ou a teoria.

Esta alma, ou vida dentro de nós, sem opção concorda com a vida exterior. Se alguém tiver a coragem de perguntá-la o que pensa, ela está sempre dizendo exatamente o oposto do que as outras pessoas dizem.

Este é um livro importante, a crítica presume, porque lida com a guerra. Este é um livro insignificante, pois ele lida com os sentimentos das mulheres numa sala de visitas.

As coisas se desprenderam de mim. Eu prolonguei certos desejos; eu perdi amigos, alguns para a morte… outros pela incapacidade de atravessar a rua.

Estas são as mudanças da alma. Eu não acredito em envelhecimento. Eu acredito em alterar para sempre o aspecto de alguém para a luz. Eis meu otimismo.

Há muito sentido na idéia de que são as roupas que nos vestem, e não nós que as vestimos; podemos fazê-las pegar a forma dos braços ou do peito, mas elas moldam nossos corações, nossas línguas às suas tendências.

Não pode haver duas opiniões sobre o que é um intelectual. É o homem ou mulher de inteligência puro-sangue que domina sua mente num galope pelo campo ao perseguir uma idéia.

A verdade é que eu sempre gosto das mulheres. Gosto da falta de convencionalismo delas. Gosto da integridade delas. Gosto do anonimato delas.

O poeta nos dá sua essência, mas a prosa pega o molde do corpo e da mente.

Quanto mais se envelhece, mais se gosta de indecência.

O interesse na vida não está no que as pessoas fazem, nem em suas relações mútuas, mas principalmente no poder de comunicar-se com uma terceira parte, antagonista, enigmática, ainda que talvez persuasiva, o que alguns chamam de vida em geral.

A história da oposição dos homens à emancipação das mulheres é mais interessante talvez do que a história da própria emancipação.

A primeira responsabilidade de um conferencista – entregar após o discurso de uma hora uma amostra de pura verdade para encerrar entre as páginas de seus diários e manter na cornija da lareira para sempre.

Os olhos dos outros são prisões; seus pensamentos nossas celas.

A ligação entre as roupas e a guerra não é tão difícil desvelar; suas melhores roupas são aquelas que lhe vestem como soldado.

A beleza do mundo, que é cedo demais para perecer, possui dois extremos, um da alegria, outro da angústia, rachando o coração.

O belo parece certo pela força da beleza, e o débil errado por causa da fraqueza.

Esse grande pátio de catedral que foi a infância.

Em algum lugar, em todos os lugares, ora escondido, ora aparente no que quer que esteja escrito, está a forma de um ser humano. Se tentarmos conhecê-lo, estaremos preguiçosamente ocupados?

Algumas pessoas procuram os padres; outras a poesia; eu os meus amigos.

Sono, essa deplorável redução do prazer da vida.

Rígido, o manjado esqueleto sustenta sozinho a estrutura humana.

Realmente, eu não gosto da natureza humana a menos que esteja toda temperada com arte.

Um dos sinais de juventude passageira é o surgimento de um sentimento de camaradagem com outros seres humanos enquanto conquistamos nosso lugar entre eles.

Gosta-se muito mais das pessoas quando elas são abatidas por um cerco extraordinário de desgraça do que quando elas triunfam.

Deve-se separar uma geléia com a qual se possa enfiar citações nas gargantas das pessoas – alguns separam sempre geléia demais.

Uma vez conformado, uma vez feito o que outras pessoas fazem só porque fazem, e uma letargia infiltra-se em todos os nervos mais finos e faculdades da alma. Ela se torna todo o espetáculo externo e vazio interior; estúpida, rígida e indiferente.

Nos subúrbios de toda agonia senta-se algum amigo vigilante que assinala.

Nada me induz a ler um livro exceto quando eu tenho qe ganhar dinheiro para escrever sobre ele. Eu os detesto.

Meu próprio cérebro é para mim a mais inexplicável das máquinas – sempre zunindo, sussurando, voando rugindo mergulhando, e depois se enterrando na lama. E por quê? Para que esta paixão?

A maior parte da vida da mulher modesta foi gasta, afinal, em negar o que, em pelo menos um dia por ano, se mostrou óbvio.

Acredito que o método humano de expressão pelo som da língua é muito elementar, e deve ser substituído por alguma invenção ingênua que deveria ser capaz de dar passagem para pelo menos seis sentenças coerentes por vez.

Luta mental significa pensar contra a corrente, não com a corrente. É nosso trabalho perfurar as bolsas de gás e descobrir as sementes da verdade.

Obras primas não são proles simples e solitárias; são o resultado de muitos anos de pensamento em comum, de pensar pelo corpo das pessoas, assim essa experiência das massas está por trás da única voz.

A vida não é uma série de faróis simetricamente arrumados; a vida é uma auréola luminosa, um envelope semi-transparente nos surpreendendo desde o início da consciência até o final.

Não são as catástrofes, assassinatos, mortes, doenças, que nos envelhecem e nos matam; é a forma como as pessoas olham e riem, e apressam os passos para os ônibus.

É a natureza do artista importar-se excessivamente com o que dizem sobre ele. A literatura é espalhada com os restos dos homens que se importaram além da conta com as opiniões dos outros.

É fatal ser um homem ou mulher pura e simplesmente: deve-se ser uma mulher masculinamente, ou um homem femininamente.

É curioso como alguém instintivamente protege a imagem de si mesmo da idolatria ou qualquer outro tratamento que possa torná-lo ridículo, ou diferente demais do original para ainda ser acreditado.

Se você insistir em me proteger, ou a ‘nosso’ país, deixe-se compreender sobriamente e racionalmente entre nós que você está lutando para gratificar um instinto sexual do qual não compartilho; procurar benefícios onde eu não compartilho e provavelmente não compartilharei.

Se você não contar a verdade sobre si mesmo, não pode contar a verdade sobre as outras pessoas.

Se ajudarmos a filha de um homem educado a ir a Cambridge, não a estaremos forçando a pensar não na educação mas na guerra? Não em como ela pode aprender, mas em como ela pode obter as mesmas vantagens que seus irmãos homens?

Se alguém pudesse ser amigável com as mulheres, que prazer – o relacionamento tão secreto e privado comparado com as relações com os homens. Por quê não escrever sobre isso francamente?

Me arriscaria a achar que Anon, que escreveu tantos poemas sem assiná-los, era na verdade uma mulher.

Eu estava com um humor estranho, me achando velha demais: mas agora sou uma mulher de novo – como sempre sou quando escrevo.

Eu quero a concentração e o romance, e todos os mundos juntinhos, fundidos, brilhantes: não tenho mais tempo para perder com prosa.

Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.

Li o livro de Jó a noite passada, eu não acho que Deus se revela bem nele.

O humor é o primeiro dos dons a perecer numa língua estrangeira.

Os imensos corpos das pessoas nunca são responsáveis pelo que fazem.

Ficção é como uma teia de aranha, presa para sempre parcamente talvez, mas ainda presa à vida em todos seus quatro cantos. Com frequência esta ligação dificilmente é percebida.

Todo segredo da alma de um escritor, toda a experiência de sua vida, toda a qualidade de sua mente está melhor escrita em seus trabalhos.

Cada um tem seu passado preso em si como as páginas de um livro conhecido por seu coração, e seus amigos só podem ler o título.

Apesar das diferenças dos sexos, eles se misturam. Em todo ser humano uma vacilação de um sexo para outro tem lugar, e com frequência é somente as roupas que mantêm o macho ou fêmea semelhantes, enquanto por debaixo o sexo é muito oposto do que está por cima.

Mas quando alguém fala para si mesmo, quem está falando? – a alma sepultada, o espírito cravado dentro, dentro da catacumba central, aquela que vira freira e deixa o mundo – covarde talvez, mas de certo modo bela, enquanto esvoaça com sua lanterna friamente para cima e para baixo pelos corredores escuros.

O tédio é o reino legítimo da filantropia.

Como mulher eu não possuo país. Como mulher, meu país é o mundo todo.

Organize todas as peças que surjam em seu caminho.

Quase todo biógrafo, se ele respeita os fatos, pode nos dar bem mais que outro fato para adicionar na nossa coleção. Ele pode nos dar o fato criativo; o fato fértil; o fato que sugere e engendra.

Contra ti me arremessarei, invencível e persistente, ó Morte!

Uma mulher deve ter dinheiro e uma sala própria se quiser escrever ficção.

Uma obra prima é algo dito de uma vez por todas, proclamado, finalizado, de modo que está lá completa na mente, mesmo que ainda oculta.

Um bom ensaio tem que ter esta qualidade permanente; deve desenhar sua cortina ao nosso redor, mas tem quem ser uma cortina que nos cerra dentro dela, e não fora.

É muito mais fácil matar um fantasma do que matar uma realidade.

Não se pode pensar bem, amar bem, dormir bem, quando não se jantou bem.

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