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Tarsila do Amaral

Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, eu estilizo.

Sou muito devota do Menino Jesus de Praga, porque alcancei muitas graças com as orações a ele. É uma novena milagrosa, eu sei tudo de cor: ‘Oh Jesus que dissestes: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e a porta se abrirá.

Parece mentira, mas foi no Brasil que tomei contato com a arte moderna.

Saiu muito boa, com muita naturalidade, foi gravada e irradiada à noite. Fiquei surpreendida ouvindo minha própria voz.

Ontem foi um dia triunfal para mim. O imenso salão do museu estava repleto, apesar da pouca publicidade. Muitas vendas. Muitos autógrafos nos catálogos que ficaram lindos assim como os convites com desenhos meus. Apresentei-me bem vestida e de chapéu. Motivo pelo qual o nosso querido Luis Coelho disse que eu não era ´dereita´ porque esperei você ir-se embora para me embelezar.

Não sei quem está fazendo isso. Noticiou-se na Difusora e Bandeirante. Todos estão prometendo ir ao vernissage. Se for a metade, já está ótimo. Estou sentindo que vou trabalhar muito em pintura, mesmo durante a exposição. Tomei gosto.

Tenho encontrado tanto carinho por parte deles que estou perdendo meu complexo de inferioridade que dura mais de dez anos. Os jornais têm anunciado minha exposição até em Santos. E mesmo o rádio, conforme me disse minha costureira.
Obs.: Referindo-se a seus amigos.

Preciso aproximar-me de meus amigos.

Bopp foi lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: ‘Isso é como se fosse um selvagem, uma coisa do mato’ e Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei Abaporu, palavras que encontrei no dicionário de Montóia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago.

Minha força vem da lembrança da infância na fazenda, de correr e subir em árvores. E das histórias fantásticas que as empregadas negras me contavam.

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